12.5.16

As conveniências dos julgadores

Repetindo o velho filósofo da Renânia, a história se repete, algumas vezes como tragédia, outras como farsa. O Brasil, em sua história, viveu essas situações. Muitas como tragédia, a última foi em 1964, com o golpe civil-militar. Como farsa, estamos vivendo, agora, em 2016, quando enfrentamos o golpe parlamentar, em que não se evidenciam os crimes da Presidente acusada, embora os ritos dos julgadores se cumpram, no formalismo do uso da lei e da Constituição. As ações humanas exigem interpretações. E essas, as interpretações, estão eivadas de subjetivismos. Se não se sustenta a tese do crime de responsabilidade, de que a acusam? Os argumentos se sucedem e nos vemos no meio dessa confusão retórica em que serve a afirmação de Karl Marx, ao falar dessa repetição sob a forma de tragédia e farsa, nos meandros da história.
A quem compete selar o destino dos humanos? Aos juízes togados ou aos juízes eleitos pelo voto popular, como senadores e deputados? A quem cabe julgar? Qual correção de atitudes lhes dá a legitimidade do julgamento? O Homem de Nazaré advertia: “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra”. E, então? Estarão os senhores do Congresso Nacional isentos de malfeitos e ações pouco meritórias?! As estatísticas mostram que mais da metade dos parlamentares, seja de uma ou outra casa congressual, tem problemas com seus mandatos, resultantes de acusações no âmbito da justiça. Qual a isenção dos senhores julgadores? Estarão os senhores e as senhoras, que julgam, livres de qualquer preconceito, ressentimento, desejo de vingança ou outros sentimentos vis e comezinhos? Qual soberania de propósitos assiste os que frequentam os tribunais e as tribunas?
Os julgadores começaram a adjetivar seus votos, denominando-os voto moral, voto técnico, voto justo, para dimensionarem as razões de suas decisões, escondidas atrás de biombos ideológicos, divisionistas, em que a questão de classe fica efetivamente ocultada nas suas falas, embora explicitada em suas atitudes. Daí a farsa.
Os senhores e senhoras, que julgam do alto de suas competências, não se importam em ouvir a verdadeira voz do povo, do qual eles se sentem tradutores das ideias e dos sentimentos. A eles interessa tão somente falarem do que entendem acerca do que ouviram das reivindicações populares, como a insatisfação, o custo de vida, o chamado clamor das ruas, tudo para mascarar as verdadeiras intenções e interesses dos que julgam.
A acusação de qualquer tipo de contravenção legal requer a tipificação do crime. Pois bem, de que acusam a Presidente? Que crime teria ela cometido? Em que ordenamento jurídico se baseou a peça acusatória, que remete a Presidente eleita ao afastamento do poder conquistado pela voz das urnas? O contrato social prevê que o resultado das urnas confere ao vitorioso a condição de gerenciamento do poder executivo, segundo as leis da República. Isso não basta? Talvez, mas na medida em que, para haver um bom desempenho, faz-se necessário saber articular, transigir, trocar com os membros do Congresso, os quais em função dos seus interesses aprovam ou desaprovam os atos da Presidência República, não sem que antes colher resultados materiais para os seus condomínios eleitorais.
 Há que serem resguardadas as definições de ética, moral, justiça e democracia, que perdem, por vezes, seu sentido substantivo, quando são usadas de forma solerte pelos julgadores, que pretendem se manter na zona de conforto e fazer uso público de motivações individualistas e partidárias, ao invés de estarem voltados para as demandas da sociedade civil, nas suas mais diversas aparições de classes sociais e frações de classe.
Sobre tudo isso merece destaque a forma como as conveniências aparecem no cenário político, em que sem disfarces os arautos da “moralidade pública” interferem no jogo do poder, demonstrando uma consciência desgastada e maculada pelos adjetivos usados nas falas, numa flagrante atitude desrespeitosa a quem está sendo acusado, chegando à vulgaridade.
Do que resta, cabe-nos o anúncio e a denúncia. O anúncio de que as vozes das urnas, como as vozes das ruas, estarão exigindo o respeito às decisões democráticas, no momento obstaculizadas pela farsa. A denúncia se sustenta no despreparo dos poderosos aliados ao grande capital, que não aceitaram o resultado das urnas e desde os primeiros momentos decidiram que não permitiriam que a Presidente eleita cumprisse seu mandato até o final. 
Até mesmo o uso efetivo do dinheiro ocorreu ao pagarem os serviços da advogada para que fosse feita uma peça acusatória. Valeu mais do que Judas, que vendeu o Mestre por 30 dinheiros. Desta vez não houve entrega do mestre, pois este estava junto, apenas o pagamento de 45 dinheiros àquela que aceitou denunciar, utilizando a montagem cênica do aparato legal. Essas conveniências dos denunciantes, acusadores e julgadores embaça a face da República, já marcada em sua história pela tragédia e pela farsa.

18.4.16

Sobre o Imaginário Popular

A forma como se articularam os discursos em torno das razões dos votos a favor do impeachment, expressas na votação de ontem, no que se chama Câmara dos Deputados, expressa o exercício de uma consciência conservadora, que prejudicou a compreensão do verdadeiro significado da democracia.
O fundamento dos que furiosamente declaravam seu voto passava longe até mesmo das questões legais, que poderiam justificar a cassação de um mandato concedido pelo voto popular. Não passavam tais pronunciamentos nem mesmo pelo crivo da crítica de uma democracia cuja representação deixa a desejar. Não. O ódio vociferante voltou-se contra uma sigla partidária e uma pessoa, no caso uma mulher, a quem eram destinados o deboche, a ironia medíocre e o desrespeito com o adversário, elementos que denotam um despreparo no exercício da ação política e uma baixa densidade de conhecimento acerca do exercício da função pública, por parte de quem está na atividade parlamentar.
Quando mais não seja, ainda ouviu-se homenagens aos ícones familiares, tornando a ação política uma ação privada, como se fosse uma festa ou uma reunião entre amigos, muito distante do objeto em questão; no caso, faltou a seriedade devida a um julgamento político, ainda que sem suficiente clareza e amparo legal.
E então, pensa-se em como funciona o preparo ou o despreparo do imaginário popular?! Todo sistema de crenças, de normas, de valores, de princípios, situações de reconhecimento ou de negação aparecem no imaginário popular, sob formas hierárquicas. E foi isso que se viu na sessão da Câmara dos Deputados, quando eram evidenciados pensamentos que defendiam torturadores, evidenciavam preconceitos e, sobretudo, diziam estar falando em nome dos que os elegeram e dos costumes dos lugares de onde vieram. Mas, permanece a questão: qual Democracia e Pátria estava sendo defendida? Aquela que tentou resolver o problema das desigualdades e injustiças sociais ou a que demonstrou o limite entre uns e outros, numa clara atitude de que a alguns cabe os benefícios da lei e a outros as punições?!
Há um lugar no imaginário popular, ali representado, onde se constrói uma espécie de proteção ou refúgio para não enfrentar as verdadeiras compreensões de direitos e deveres. O que valeu para governos anteriores, não vale para os atuais. Combate-se a corrupção de uns e convive-se com a corrupção dos parceiros, pois teriam significados diferentes!! Alguém deve ser caçado e outro pode presidir um julgamento, sem o menor tremor! Esses estereótipos se prestam a manipulações estimuladoras do populismo e do clientelismo, como expressões políticas da representação parlamentar.
As relações de igualdade e/ou desigualdade se estabelecem como uma cultura política na esfera do popular aqui nomeado a todo instante para acobertar uma consciência conservadora, que não suporta mudanças que possam colocar em perigo privilégios de classe. Até mesmo o uso político da religião foi sobejamente justificado. Em nome de Deus e da Lei, mata-se o cidadão.
Essa racionalidade falaciosa ornamenta a prepotência, a serviço de uma cumplicidade com o popular para melhor fragilizá-lo e destruí-lo. A sedução funciona como uma estratégia de cerceamento da racionalidade crítica, expressa nas falas de homens e mulheres envolvidas nos estreitos limites de uma ação política individualista e rancorosa. É uma face do autoritarismo que se torna eficaz nos seus objetivos, especialmente quando funciona para garantir privilégios.
Esse mundo de significados espelha-se na imagem de uma conduta oblíqua em que funciona melhor como dominação do que como libertação. Produz-se um certo bem-estar moral nas propostas ofertadas ao povo e regozija-se no “banquete” servido para comemorar o abate da caça. Desta forma se dá o rito do imaginário popular, comandado por seus menestréis.
Por mais que doa um revés de luta e o canto substitua-se pelo pranto, ainda assim, sabe-se que Alguém deve morrer, como diz o poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias: “Corram livres as lágrimas que choro. Estas lágrimas, sim, que não desonram”.


14.11.15

Que dizer? Que pensar?

Passada a perplexidade inicial, cujos comentários televisivos, jornalísticos e de especialistas nos assombram com análises, dados, fatos, contextualizações de um mundo em guerra, o que nos sobra?
Ouvimos sobre aliados, alianças, confrontos, estratégias, número de mortos e feridos, indignações por parte dos dirigentes dos países envolvidos ou solidários com as vítimas do terror, mas nada ouvimos sobre as causas remotas e históricas que motivaram tais crimes.
Temos em nossa memória várias notícias sobre países que bombardeiam os outros, julgados inimigos ou até mesmo adversários, que invadem as nações entre Oriente e Ocidente numa azáfama cotidiana e assassina e tudo isso fica como um registro factual, mas não como algo para ser avaliado do ponto de vista dos valores ou não-valores que conduzem a humanidade. Que dizer? Que pensar?
Sabemos de tanto ouvir os nomes dos principais chefes de Estado mundiais, suas intenções e interesses, suas estratégias de poder econômico e de domínio político, mas não ouvimos deles nenhuma intenção de repensar suas políticas e mudar suas atitudes. Em todas as latitudes o que aparece é o número de vitórias ou derrotas ou a indicação de exércitos e de vítimas, nada que acrescente ao desejo possível de uma vida boa e justa para os cidadãos.
Confrontam-se as nações ao Oriente e Ocidente e mostram-nos uma estatística perversa de mortos, prisioneiros e terroristas em que se conclama o poder do mais forte com fundamento no ódio, na crença, no poderio bélico. Estamos sendo desafiados a entender esse momento do mundo em que a humanidade atenta contra si mesma, na forma de extermínio. Temos povos cuja experiência única de vida é a guerra, em que suas crianças e jovens não tiveram passado, não conseguem viver o presente e já tem seu futuro ameaçado.
Até quando ficaremos atemorizados diante desse cenário que nos afeta a todos, que temos a vida como um valor fundamental, que não pode ser aniquilada nem em nome de religiões, nem em nome de ideologias?! O que veremos ainda nessa teatralidade criminosa, onde o ódio, a vingança, o preconceito e a desigualdade se tornaram protagonistas?!
De que adianta nos consolarmos sobre a perda dos que morreram se não há intenções efetivas de combater esses protagonistas do mal?! A flor ou a vela que colocarmos na sepultura de mais uma vítima do terror não nos tornará melhores se não lutarmos por uma consciência pública de responsabilidade civil, de modo a atingirmos as instâncias governamentais dos povos e países para que se possa pensar na paz mundial.
Depois de tudo isso, fiquemos com Shakespeare, o resto é silêncio.

7.8.15

Para pensar a Paz

Que dizer sobre as cidades que viraram cinzas? Qual racionalidade explica o gesto da destruição? Que passou na cabeça do piloto, naquela distante manhã de 6 de agosto de 1945, quando acionou o dispositivo e fez detonar a bomba de urânio que caiu sobre Hiroshima?
Que inquietações teria, naquele momento, em que sobrevoava a cidade e aniquilava a população?! Poderia ter questionado a ordem recebida e não ter cumprido a missão que lhe fora determinada?! Sartre diria que sim, tudo é uma questão de escolha. O piloto escolheu cumprir a ordem de explodir a bomba, não sem pensar. Sua ação foi movida por sua inteligência. É lógico que sua desobediência poderia ter consequências punitivas, mas todos os atos humanos têm consequências e nem sempre as melhores. Este foi o caso. Uma população dizimada. O descumprimento da ordem, se fosse essa sua escolha, talvez tivesse mudado o rumo da história.
Nem todas as comemorações são para celebrar alegria. No dia de hoje, em que se assinala 70 anos do lançamento da bomba atômica sobre uma população desprotegida, lembra a pouca ou nenhuma importância que é dada à vida humana. Os experimentos bélicos devem ser testados, movidos por interesses de domínio e exploração, ainda que isso resulte em dores e mortes.
No cenário de 80 mil mortos e 60 mil vitimados pelos efeitos da bomba, como pensar em re-orientar a Vida? A quem cabe essa responsabilidade civil, pública, humanitária? Em nome de que e de quem foi feito o experimento devastador sobre uma população desamparada, desprevenida, cujo destino foi ser alvo de algozes dos senhores da guerra?!
Os monumentos erguidos, as comemorações realizadas, as atitudes de autoridades constrangidas, que podem trazer para a cena atual?! Há um verdadeiro interesse pela paz ou essa palavra, deslocada de seu sentido, tem conotações diferentes entre as vítimas e os opressores?!
Hannah Arendt assevera em seus textos que a humanidade tem ações imprevisíveis e isso é atemorizante. É preciso pensar sobre o que foi feito para que não se repita, refere ela, falando sobre o genocídio judeu. Essa advertência cabe perfeitamente no caso de massacres semelhantes como o ocorrido nas cidades japonesas.
Mas os genocídios continuaram e continuam com bombas mais sofisticadas, resultantes das rupturas realizadas entre os povos, em conflitos de todo tipo. Vítimas sempre! Punições pouca! Discursos contínuos! E a humanidade, que desejará para si mesma?!
Lembrar 70 anos da destruição de Hiroshima e Nagasaki, realizada pela inteligência tecnológica, é registrar os paradoxos da razão iluminista. Essa razão que cantou louvores a si mesma, imaginando ter saído da “barbárie”, produziu temores pelos enforcamentos, pelas perseguições religiosas e pela morte dos cientistas nas fogueiras da intolerância.
Temos presente essas marcas e podemos almejar um futuro sem tantas cicatrizes, além disso, se quisermos, como humanidade, caminhar de modo diferente.
Hobbes não acreditou nisso e definiu a maldade como traço humano. Rousseau, romanticamente, pensou numa humanidade boa, simplesmente. Para nós, cabe o desafio de superar maniqueísmos de bem e mal e enfrentarmos o tempo presente pela revolução ética, além dos individualismos e das ideologias.

16.1.15

Intolerância, fundamentalismos e violência



     Do que tem sido informado, analisado, debatido, criticado e registrado pela mídia e redes sociais, acerca do episódio trágico de Paris, é importante que não seja esquecida a perspectiva da totalidade. Longe de querer fazer considerações transcendentais, o que me move a falar sobre o assunto, transcorridos os momentos de maior euforia e passionalidade, é o fato mesmo da lacuna que se apresenta num projeto humanista em que a igualdade, a liberdade e a fraternidade ficaram mais como adornos de bandeiras e menos como realização concreta na vida dos sujeitos.
     Ouvindo diferentes opiniões, lendo críticas abalizadas, percebo que passado o choque inicial do assassinato dos jornalistas, como uma bofetada na face de uma nação civilizada e republicanamente organizada, é possível abrir o leque das compreensões e buscar um entendimento mínimo sobre as razões que motivaram e motivam os jihadistas ou membros de facções suicidas, sejam elas de qualquer inspiração ideológica, política ou religiosa.
     Na história da humanidade, civilizada ou não, matou-se e mata-se em nome da fé, da crença em nome de Deus, de Alá, de Javé, passando por rituais de sacrifícios humanos nos sincretismos religiosos, mais diversos e terríveis. O que é mais dramático – sempre em nome de uma ideia, a serviço de uma causa, que segundo os protagonistas, requer atitudes drásticas. Os sujeitos racionais, que constroem ideias, escreveram e escrevem assim sua história.
     As cruzadas, entendidas como guerras santas, que cumpriram a “missão” de conquistar fiéis e territórios, não declaravam a nobreza de seus propósitos, justificados em nome do Cristianismo?! Os que criaram, fortaleceram e mantiveram pessoas como escravas, por serem diferentes na cor da pele ou na forma de falar e cultuar seus deuses, não agiram em nome de um fundamentalismo intolerante e discriminatório?! Como aceitar que nossos índios fossem domesticados por um discurso “competente”, na forma proselitista de pregação doutrinária, apenas porque seus hábitos e crenças não condiziam com as formas do colonizador civilizado.
     E os exemplos se sucedem infinitamente. Os episódios totalitários do século XX, em que os líderes de nações européias, sejam do leste ou do oeste, formataram os povos e as culturas, numa decisão exterminadora, não podem ser esquecidos. Em nome de que ou de quem Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Salazar, para ficar nos mais proeminentes, agiram numa forma de limpeza étnica ou ideológica?!
     Alguém de nós sabe o instante em que foi decidida uma declaração de ódio e extermínio entre árabes judeus?! Sabemos todos dos interesses e motivos que movem uns e outros?! Os que decidem servir como árbitros nas contendas, em que medida se mantêm numa postura de equilíbrio, de não-julgamento ao se posicionarem nas regiões de conflito? Ou permitem que seus interesses de “nações civilizadas”, em que o Capital está em jogo, interfiram no juízo decisório?!  Estará aí havendo o respeito aos ideais da igualdade, da liberdade e da fraternidade?!
     Uma outra dobra desse movimento de intolerância e violência, pode ser analisada. Qual foi o índice de publicidade, manifestação e registros dos órgãos de divulgação sobre outros episódios de massacre acerca da liberdade de expressão?  O que aconteceu com as meninas nigerianas sequestradas em Chibok, retiradas da Escola pelo grupo fundamentalista islâmico Boko Haram, que não permite às mulheres qualquer forma de esclarecimento, recebeu o mesmo destaque da Imprensa?! Por que não merece a mesma repulsa por parte do Ocidente civilizado?! O que ocorre na África não sensibiliza o mundo?!
     Para reiterar o que todos já sabemos: qualquer espécie de generalização de situações pode ser injusta. Nesta lógica, não podemos atribuir a todos os adeptos do islamismo atitudes de violência ou intolerância. O malinês, Lassana, muçulmano praticante, que ajudou clientes judeus a se esconderem numa câmara fria da loja, atacada pelo jihadista Coulibaly, afirmou eu não escondi judeus, escondi seres humanos. Este é o gesto da fraternidade.
     Há muitos lugares em que o convívio se tornou possível. Não é o fato de ser árabe ou judeu, oriental ou ocidental que torna um sujeito violento e intolerante. Será sempre o modo com esse sujeito se deixou tomar pelo ódio e a intolerância fazendo desses sentimentos o fundamento de sua vida.
     Tendo a concordar, em parte, com a fala de Slavoj Zizek, filósofo, quando diz que os culpados dos que cometeram os ataques de Paris é mesmo dos que cometeram o assassinato. Não tem que ser atribuído a outros o que eles decidiram fazer. Vale lembrar, aqui, a fala de Jean-Paul Sartre, filósofo, que dizia o importante não é o que fazem de nós, mas o que nós fazemos com aquilo que fazem de nós, ou seja, somos responsáveis por nossa liberdade de escolha e ação. A decisão final é nossa.
     Numa França, em que Voltaire não pode ser esquecido por assegurar o direito de se ter a própria opinião, na frase célebre, posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las, da mesma forma, não pode ser desconsiderada a ideia de Sartre de que toda a escolha implica em responsabilidade. Os jornalistas escolheram expressar suas opiniões, com suas críticas humoradas. Com o destaque de que eles sabiam das consequências de suas escolhas. E decidiram continuar. Até o fim.
     Com isto não quero conceder a ninguém a interrupção do direito da liberdade de expressão. Ao contrário, importa afirmar o projeto humano como um projeto de liberdade. E reiterar que todos os atos têm consequências. Seria desejável que não fossem violentas.
     Sem ser Charlie e sem alinhamento aos fundamentalismos da Al-Qaeda e de qualquer tipo, a esperança é de que possamos viver num mundo de diferenças, sem os limites da intolerância e do poder discricionário. Na expectativa, além de Marx, que a história não se repita apenas como tragédia ou como farsa, mas que possa ser escrita com mais exigência humanista, nos fundamentos da liberdade e da justiça para todos.

21.12.14

Auto de Natal

Não se preocupem não irei descrever, novamente, a narrativa que todos já sabem, ouviram e leram de fontes mais sábias. Não me atrevo a repetir articulistas e romancistas famosos ou midiáticos, que têm acolhida nas grandes redes de jornais e televisão.
Minha intenção é bem mais modesta. Desejo apenas, utilizando a metáfora do auto de Natal, esboçar um enredo diferente das críticas costumeiras e dos exemplos repetitivos. Quero dirigir o pensamento ao imaginário de cada um e mostrar a originalidade sempre renovada que é o nascimento. Sem estranhezas ou acusações, pois todos já sabemos que elas nos atingem diariamente, via notícias e espetáculos.
Quero partilhar uma visão digna da simplicidade da manjedoura, abrigo de um menino que fugia da tirania dos reis, mas que não fez de sua pobreza apanágio para se tornar vítima de nada. Ao contrário, o incentivo era para a nobreza de caráter e o desprendimento de riquezas que escravizassem.
Neste auto de Natal, que não quer reproduzir a vida e a morte de um líder, o interesse é registrar os seus próprios registros. A hipocrisia era algo que abominava o jovem, nascido próximo aos pastores e suas ovelhas. Chamava os hipócritas de sepulcros caiados, belos por fora e apodrecidos por dentro.
Contemplamos essa hipocrisia ao vermos artigos e comentários sobre e contra a fúria capitalista, sendo que no cotidiano essas mesmas pessoas não têm uma atitude diferente dos que criticam. Usam de artifícios para conseguirem seus intentos, sabem seduzir para se colocarem melhor no mercado e, especialmente, consomem e se deixam consumir como qualquer mercadoria. Então criticam os que comemoram o Natal como um gesto histérico, sendo que a histeria integra sua própria vida, que faz parte do espetáculo do consumo e está posta a venda. Só chegarem ao preço e fazerem a oferta. Vendido será o próximo indicador em seu peito.
Escribas e fariseus eram apontados como atores da hipocrisia social. Temos hoje esses atores com novas roupagens participando de uma festa da qual não têm convicção, mas que precisam estar para serem vistos. O palco continua armado para eles entrarem em cena e se posicionarem para mais um espetáculo.
Feliz e livre é o sujeito que se pauta por seus princípios, ainda que desagrade os demais. O nascimento que se comemora é o de um sujeito orientado por princípios, cuja história enalteceu os seus seguidores e impressionou os seus detratores. Temos até a metáfora do covarde, que não quis ser responsável por seus atos e “lavou as mãos”. Esse é um gesto que se repete, quando as pessoas desistem da coerência e lavam as mãos para não assumirem o que fizeram.
O auto de Natal, que entendo poder ser escrito e descrito, é uma forma de restaurar a beleza da simplicidade, a delicadeza das trocas, a grandeza da generosidade e a coragem das convicções. Não repetimos as comemorações de Natal pelo simples costume, realizamos a festa pelo Nascimento de uma Vida a ser celebrada, como a vida de todo ser humano que nasce e deve ser acolhido.
Importa pouco se há ou não um “espírito natalino”. Penso que pode haver um gesto de mãos estendidas, num esforço de reconhecimento dos humanos entre si. Este foi o testemunho que o Homem de Nazaré quis deixar ao mundo. A figura carismática do Cristo desejou a Vida em abundância para todos.
Por esse auto de Natal, sem a pretensão de ser roteirista, reitero o apreço que tenho pela confraternização alegre, singela e, sobretudo, humana. Quero aproveitar o momento dessa escrita para cumprimentar a todas e todos, com um abraço fraterno, desejando esperança e coragem para receber o Novo que chega.
Feliz Natal!


30.11.14

É Dezembro

É dezembro, um mês mágico pelas cores, sons, sonhos e expectativas de encontros. A natureza está bela com os pássaros cantando, as borboletas acariciando as flores e as árvores verdejantes e floridas. Tudo é pródigo em encantamento, na Terra que nos abriga e da qual cuidamos tão pouco!
Essa harmonia estética que presenciamos ao olhar ao nosso redor nos dá a sensação de estarmos em “bodas com o mundo”, na expressão magnífica de Albert Camus. Como se ouvíssemos os interlúdios mais melodiosos a embalarem nossos dias. É a dimensão efusiva da alegria!
No entanto, sabemos que essa harmonia da natureza é interrompida pela ação dos humanos que não desejam estabelecer laços sociais e só produzem hiatos entre a convivência de todos. Paramos, um pouco, no final do ano sem a intenção de fazermos o balanço tradicional dos propósitos cumpridos ou não. Paramos um pouco para pensar nas razões das ações humanas. Porque ainda que nos deixemos tocar por todo esse conjunto belo da natureza, que nos presenteia, em momento algum podemos esquecer os cataclismas ou tsunamis que assolaram nossa sociedade civil.
Como não pensar que a soma dos bilhões retirados de uma empresa pública, que presta serviços ao progresso da Nação, tem um custo além do monetário, tem um custo moral?! Sim esta é a nossa perplexidade. Por anos a fio, um grupo de pessoas seletas, inteligentes, com conhecimento do que fazem, decidiram usurpar os cofres do Tesouro Nacional em benefício próprio e de suas empresas. E ainda com o agravante: procuram justificar o que fizeram, trocando acusações, com a intenção de deixarem sua culpa menor e se apresentarem como enganados, extorquidos, iludidos ou, no mínimo, desenhando um perfil com traços de seriedade!?
Não nos inclinamos para nenhum viés maniqueísta, em que os bons estão do nosso lado e os maus são os adversários. Longe de nós pensarmos que alguns são filhos de Caim e outros oriundos de Abel. Não nos toca esses sentimentos discricionários. Todos somos plausíveis de erros e acertos nas nossas contingências. No entanto, o que nos causa indignação  é que nenhum desses senhores que se apropriaram do bem público estava em estado de necessidade. Nenhum! O que lhes move é o desejo exacerbado do lucro fácil, do acúmulo ilícito da riqueza, sem nenhuma preocupação com o resultado das suas ações.
Como não nos sensibilizarmos pelas dezenas de famílias que são atingidas por essas ações? Que dizer aos operários que perderão seus empregos, como resultado da ruptura de contratos entre as empresas e a Petrobrás? Em algum momento, no interior das celas privilegiadas onde estão presos aqueles que optaram por trair e não participar da Ceia comum, lhes domina algum sentimento mínimo de arrependimento e desejo de consertar o mal feito com o dinheiro público?!
Não cabe nos limites desta crônica analisar o que a humanidade fez para si mesmo, quando se organizou em torno do dinheiro e decidiu viver apenas em busca dele. Isso incorre em análise de valores, de projetos pessoais, de consciência moral e, sobretudo, de escolhas de vida.
Mas, a nossa intenção, ao registramos a beleza de um Dezembro que chega com sinais de festa e alegria, é sabermos que as intervenções que os humanos fazem no mundo nem sempre são benvindas e produzem névoas nas nossas comemorações. São as ambivalências que vivemos. Na maioria das vezes, as atitudes são predatórias e nefastas. Temos aí o risco do aquecimento global a ameaçar nosso bem-estar por atos que destruíram e destroem o meio ambiente. Continuamos a poluir os rios, a desmatar as florestas, a agredir os demais seres vivos em nome de um certo poder da nossa racionalidade (?!)
Em todo caso aqui chegamos ainda vivos e com promessas de continuidade da vida. Que possamos diminuir mais nosso ímpeto destruidor seja naquilo que atinge a vida em sociedade, seja naquilo que toca a vida no planeta.
Nossa possibilidade de pensar e criar quase não tem limites. Que façamos dessa característica uma forma de produzir e manter a harmonia das flores e dos pássaros, que sobrevivem respirando o que lhes toca por direito sem se apossarem do que não lhes pertence.
Que nosso abraço com o mundo e a natureza tenha a transparência da acolhida e do encontro, sem se deixar contaminar pelo engodo e pela malícia de querer mais, sempre mais.

29.8.14

Inquietudes e Contradições



Como ouvir o pedido de socorro de uma criança, sendo trucidada pelo pai e pela madrasta, sem estremecer? Que sentimos ao assistir que a moça assassina dos pais pode passar para o regime semi-aberto por “bom comportamento”? Como reagir diante das imagens de idosos que denunciam os maus tratos dos filhos e parentes? Que nome daremos a atitudes dessas pessoas? Sim, porque por mais que queiramos chamá-los de feras, de monstros ou adjetivos do gênero, não identificamos feras e monstros fazendo isso para seus semelhantes.
O ódio, o rancor, a raiva, o medo, a intolerância são sentimentos que encontramos entre os humanos. Os animais não constroem qualquer plano de extermínio, nem são capazes de pensar numa cilada noturna, como a filha adentrar o quarto dos pais, conduzindo os assassinos. Os bichos, assim chamados por nós, não inventam uma suposta viagem com uma criança para, afinal, dar-lhe uma dose letal e enterrá-la após salpicar seu corpo com soda cáustica. Nem mesmo jogam crianças pela janela, mentindo que tudo não passou de um acidente. Os bichos não sabem mentir.
Somos inquietos e contraditórios todo o tempo. Na maioria das vezes, nossas contradições resultam de nossas inquietudes. Por motivos diversos, estamos apreensivos diante dos acontecimentos, das notícias, das relações que estabelecemos, dos projetos que elaboramos, sejam eles de construção ou de destruição.
Tudo concorre para que a inquietude se instale em nossa mente, produzindo em nós atitudes contraditórias, em que negamos o que acreditamos e afirmamos o que nos produz dúvidas. Nada estranho. Tudo dentro da expectativa que os humanos construíram para si mesmos.
Desde um pequeno conflito doméstico que pode se tornar imenso e resultar em aniquilamentos, passando por dissabores no mundo da vida, até um grande enfrentamento bélico, tudo demonstra nossa inteligência para construir ou para destruir. Mostramos nossa grandiosidade e perspicácia em fazer críticas, em analisarmos comportamentos e conjunturas das situações e evidenciamos nossa pequenez ao dirigirmos nossa metralhadora para eliminar o que nos incomoda e aparece para nós como desconforto e empecilho, sejam filhos, pais, idosos e povos.
Afinal, como queremos pensar a paz e a concórdia no mundo, o encontro dos povos, a harmonia das famílias, se tudo o que fizemos concorre para a desavença, a desarmonia e o confronto?!
Não se trata de termos atitudes passivas e conformistas com o que nos agride e desagrada, mas trata-se de avaliarmos com equilíbrio e tirocínio as dimensões alargadas das situações familiares, sociais, políticas, econômicas e culturais para que possamos entender-nos e entender o mundo que construímos, sem nos sentirmos melhores ou piores que os outros sujeitos. Precisamos, talvez, pensar em uma lógica de companheirismo, de tolerância e de perdão, sem o esquecimento das injustiças, para que as vítimas não se tornem pessoas abandonadas pela nossa memória.
A justiça pode afirmar a vida para os sujeitos se, efetivamente, se tornar justa. Desejamos, portanto, que as crianças não gritem mais por socorro, pela aflição causada pelos pais e que os pais jovens ou idosos não temam as ações de seus filhos. É possível querer também que os povos, mesmo com suas contradições, não tragam inquietudes entre si. Continuamos, como humanos, plenos de defeitos, carentes, mas podemos nos permitir sermos melhores, desejosos de uma vida justa.


11.7.14

A Fugacidade da Glória

          Desde pequenos somos estimulados a vencer sempre e em tudo sermos os melhores. Da família, passando pelos períodos iniciais da vida escolar, às iniciações religiosas, todo o tempo de nossa formação é voltada para o êxito.        
          Será essa atitude vinculada ás compreensões dos limites humanos?  Em ocasiões de vitória ou de fracasso são chamados para serem ouvidos, como bons arautos, psicólogos, antropólogos, sociólogos, economistas e demais especialistas. Como raramente é chamado o filósofo para dar seu parecer, ouso opinar, sem ser chamada.
Trata-se do que estamos vivenciando, como povo, como sociedade brasileira, o evento da Copa do Mundo e, particularmente, o fracasso da seleção, que, no meu tempo, era chamada de seleção canarinha, a qual aprendi a amar, torcendo sempre pelo seu sucesso. Pois bem, neste momento, parece que vivenciamos um luto, tal o tamanho da perda que sofremos como país, nação, povo, imaginário nacional, enfim, tudo o que quisermos caracterizar.
Falo do meu lugar interpretativo da realidade, uso meu olhar filosófico para dimensionar a forma como todos nós experimentamos a derrota. Devo dizer que o impacto da goleada estremeceu meu brio, minha honra nacional. O instante foi de incredibilidade. Que estava acontecendo? Por que nossos jogadores se deixaram vencer daquele modo?!  Detenho-me em analisar o nosso treinamento para o êxito, sempre. Isso é falacioso. Nenhum de nós, sujeitos limitados, vencemos sempre, todo o tempo, sem nenhum revés, seja na vida pessoal, seja no âmbito profissional.
Além do mais, como seres imperfeitos, finitos, contingentes, não temos condições de grandezas absolutas e perfeições irreparáveis. Ao contrário, ao longo de nossas vidas são necessárias correções de rumo, continuamente, esforços inusitados para atingir metas, escolhas as mais sérias para realizarmos nosso projeto de vida e mais do que nunca termos a consciência plena de que a glória é fugaz. Alguém, em um momento está no topo da pirâmide, em outro, cai e é substituído, imediatamente e até esquecido.
Não analiso, aqui, as conjunturas que antecederam a escolha e o treinamento de nossos atletas, pois não sou expert em táticas e estratégias futebolísticas. É evidente que houve erros de dirigentes, bem como conveniências e interesses que se sobrepuseram ao elemento principal, que é a formação de atletas competitivos para disputar uma copa do mundo. Em todo caso, sabemos que a notícia se torna um produto a ser vendido e o atleta comparece nesse cenário também como uma mercadoria cara, representando o conjunto de interesses de seus patrocinadores, que estão de mãos estendidas para receberem o lucro do capital investido.
É possível que possamos tirar uma lição desse evento que passou a ser denominado vexame ou vergonha nacional. Temos que cuidar da formação inicial dos sujeitos, que deve incluir o aprendizado de perdas, o sentimento de limites com as próprias emoções e, mais do que nunca, compreender que não há permanência no podium da vida, nem sempre podemos brindar o sucesso com um famoso champanhe. Às vezes só temos nossas lágrimas como gotas a nos molharem a face, registrando nossa imperfeição. Afinal, precisamos entender a fugacidade da glória.


Cecília Pires



31.3.14


A FARSA DA DEFESA DA PÁTRIA

Cecilia Pires

 

                   Na Escola Normal Medianeira, em Santiago do Boqueirão, saindo da adolescência, ouvi os primeiros murmúrios de que o ‘perigo vermelho’ estava afastado do Brasil. Que os comunistas haviam sido derrotados pelas forças da Ordem (?) e que voltaria a paz e a harmonia entre todos os brasileiros.

         Como militante da JEC – Juventude Estudantil Católica – me assaltava sempre o espírito crítico e questionei o que estava ocorrendo com o episódio da denominada “Revolução”. As superioras da Escola, de modo evasivo, impediam o debate e depois objetivamente proibiram as reuniões do núcleo da JEC na Escola, bem como as publicações críticas e até ingênuas dos estudantes no Quadro Mural da AME – Associação Medianeira de Estudantes.

         Muitas falas se fazem ouvir, neste momento, em que o calendário marca os 50 anos do Golpe que exigiu ser reconhecido como Revolução. Alguns historiadores analisam que 50 anos é um tempo relativamente curto para avaliação de fatos e entendimento da conjuntura. É possível, mas para quem viveu, sofreu e sobreviveu aos horrores dos “anos de chumbo” foi um tempo muito longo os 21 anos em que a democracia foi violada pelo autoritarismo patrocinado por militares e civis em nosso País.

         Todo o discurso ‘em defesa da Pátria’ registra a atitude prepotente em que os identificados como adversários ou inimigos do governo eram considerados inimigos da Pátria. Na minha pequena cidade, uma colega de Escola ao sair pela manhã para a aula, depara-se com seu quintal tomado por soldados, para prender seu pai, um líder político de oposição, um perigo para a Pátria e o bem-estar das famílias. Uma cena dos filmes de guerra!

         Um amigo do meu pai, cujo patrimônio perdera por conjunturas econômicas, tornara-se um comentador ingênuo das lides políticas e frequentador de rodas populares. Elogiava muito Brizola. Foi preso e advertido por expressar opiniões contrárias aos ditames dos autores do golpe.

         Na continuidade dos acontecimentos saio de um lugar tomado por quartéis e generais grandiloquentes e vou para outro, Santa Maria, para prestar vestibular na UFSM, uma cidade tomada por quartéis e civis conservadores, leais aos “revolucionários”, salvadores da Pátria. Imaginem o que significava o fino exercício de lógica e argumento nas aulas de Filosofia, onde os padres Palotinos nos estimulavam ao exercício da crítica! O protagonismo desses professores merece meu respeito histórico e político, pois não se deixaram intimidar pelo pessoal da ASI (Assessoria de Segurança e Informação), que ocupava um andar próximo ao Gabinete do Reitor. Era a presença física do Estado Autoritário na Academia.

         Um dos padres palotinos organizou no ano de 68, o Grupo Universitário, que depois se tornou o MUSM, Movimento Universitário de Santa Maria, com o objetivo de reunir estudantes e discutir questões acerca da Universidade Brasileira, bem como celebrar o culto religioso para os que desejassem participar. Foi concedido o porão da Casa do Estudante. Mas um Reitor extremamente autoritário, certamente incentivado pelos generais de Brasília, exigiu a retirada dos estudantes daquele local e assim fomos acolhidos numa casa de família por uma Grande Senhora, que viabilizou a continuidade dos encontros dos universitários, que não queriam mais do que debaterem os problemas da política, as relações da Igreja com o Estado, a importância de uma Universidade crítica e competente e até mesmo a sua condição de sujeitos nessa conjuntura nacional.

       Por que relato tudo isso no dia em que o calendário assinala os 50 anos do Golpe? Porque desejo me associar às comemorações em defesa da Democracia, para que não haja mais o espetáculo da vilania e da tortura e para que os que nasceram depois de 64 saibam que aqueles que amordaçaram a democracia não prestaram nenhum serviço à Pátria. Ao contrário, associaram-se com empresários nacionais e estrangeiros que financiaram e se locupletaram do sistema ditatorial, perseguindo, torturando e matando os inimigos do Regime.

                   É necessário, portanto, desconstruir esse discurso de defesa da pátria, que pode emocionar os ingênuos e os mal informados, mas não pode se perenizar nas consciência cívica de quem quer um Brasil livre, soberano e justo.

28.6.13

O que a gente quer

A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
(Gonaguinha)

As vozes das ruas conseguiram ser ouvidas pelas autoridades. Algumas questões passaram a serem resolvidas como a derrota da PEC 37, a diminuição das tarifas de ônibus, a corrupção considerada crime hediondo e certa sensibilidade para o que se está chamando de reforma política, exigida pelos manifestantes como a crise de representação.
Tudo isso requer muita energia, disciplina, coerência e, sobretudo, compromisso ético, elemento ausente nas atividades políticas das representações atuais.
Nas ruas, ouve-se o grito lúcido dos que desejam mesmo uma Nação melhor para todos em todos os aspectos, mas também observa-se a sanha covarde e malfeitora dos que querem apenas quebrar tudo, buscam apenas a desordem, prejudicando a autêntica atitude de protesto, própria de um povo maduro. Aparecem as dissidências entre os próprios manifestantes e os que se apresentam como engenheiros do caos. Em todas as cidades ocorreram esse desfavor à democracia. De uma forma fugidia, para dizer o mínimo, os predadores escondem seus rostos para não serem identificados, debilitando o próprio movimento, cujos fins são acatados e respeitados pelos que querem um Brasil avançado em todos os aspectos da vida pública.
Os jornais noticiam e mostram os rostos marcados por sangue, por balas, tanto de civis, quanto de policiais, numa vitrine que causa asco a qualquer espirito cidadão. As insurreições e os conflitos são parte da dimensão humana na forma de organizar a sociedade civil. O que não se pode coonestar é com ações de uma nova barbárie, em que o gesto da destruição se torna mais forte do que o clamor por mudanças. A gente quer viver uma nação. A gente quer ser um cidadão, como diz a letra da canção de Gonzaguinha.
Não se tem medo do povo nas ruas e das atitudes de protesto e de revolta em que as pessoas se mostram insatisfeitas com os desmandos da governabilidade, em geral, tanto dos empresários dos diferentes setores da economia, quando do Governo, nas suas variadas gestões. Luta-se pela diminuição do preço das passagens. A quem se dirige este protesto? À gestão pública e à gestão privada? Ou apenas à primeira? Porque queremos justiça, honestidade, transparência de todos os que oferecem serviços públicos e ao público. Portanto, se o Gigante acordou, é para surgir com veemência contra lucros extorsivos sobre uma população já carente de tantos benefícios.
Veja-se qual a cota de sacrifício do empresariado nacional para ter menos lucro e contribuir com mais hospitais, escolas, creches e qualidade alimentar para a população. Pagam-se impostos, e muito, e na maioria das vezes as verbas públicas são mal utilizadas, mas, pergunta-se, subsidiar grandes empresas não é tirar da população o dinheiro do imposto que poderia ser aplicado de outra forma, como nas melhorias que o povo está pedindo nas ruas?! E qual o retorno das empresas que recebem subsídios, fruto do dinheiro público? Qual a volta para o público, em ações de qualidade de vida?
A coerência entre o falar e o agir testemunha a seriedade das reivindicações das ruas. É indispensável, pois, que não se tenha dois pesos e duas medidas, pois não dá para abrir a Caixa de Pandora e deixar sair dela os males todos, espalhando pelo país a doença, a inveja, a praga, a insanidade, esquecendo que nem todos estiveram dormindo todo este tempo, como lembrava um cartaz das passeatas. Há os que permaneceram acordados em defesa da liberdade e da Nação. Neste novo está contido o velho, que se transforma na própria mudança dos tempos. Sempre é possível a reinvenção. A gente quer viver pleno direito. A gente quer um Brasil para todos. Assim caminha a humanidade nas ruas das nossas cidades.
Cecilia Pires

19.6.13

Caminhadas de Outono

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...

(Chico Buarque)


Apresentados os diversos pontos-de-vista de comunicadores, sociólogos, politólogos, formadores de opinião, jornalistas, ouso partilhar uma pequena reflexão sobre o movimento das ruas, que estou chamando Caminhadas de Outono. Talvez, com a esperança de que, ao menos no calendário, as estações se sucedem e chegaremos à Primavera. Essas caminhadas das ruas,  ilustradas pelas fumaças dos gases, fogos, balas, spray de pimenta, vinagres podem levar à primavera de nosso país. Os manifestantes querem acordar o gigante, que adormecia.
Todos nos sentimos envolvidos e atingidos pela crise que se mostra no distanciamento entre a sociedade civil e o Estado. Esse fato não é novo, faz parte da história da nossa colonização. A governança faz ensaios de acertos e erros. Tem mais errado que acertado. As caminhadas das ruas, traduzidas no que se identifica como movimentos dos diferentes segmentos sociais, expressa o sentimento de indignação contido durante muito tempo e que começa a explodir face ao descaso no qual a população foi submetida.
A canção de Chico Buarque é ilustrativa: E qualquer desatenção, faça não pode ser a gota d'água... E aconteceu. A gota d’água foi o preço das passagens. Seria ingenuidade, no entanto, ficarmos restritos aos 20 centavos do aumento dos bilhetes. Na
nossa história, a dominação do Estado sobre os cidadãos foi contínua, forte e astutamente dissimulada. As caminhadas das ruas, neste outono, evidenciam o nível de descontentamento, de desconforto, de inconformidade com as condições de saúde, habitação, transporte, educação em que se encontra a maioria da população.
          Não concordo com o espetáculo midiático no qual, muitos se sentem a vontade para fazer a crítica pela crítica, confundindo meios e fins. Não sou partidária de Maquiavel, que justifica o uso de qualquer meio para atingir o fim proposto. Nada explica a depredação de bens e serviços públicos, pois a revolta ocorre, também, pelo mau uso das verbas públicas.
          O protesto é afirmativo como ato civil, porque mostra a capacidade organizativa da população e o uso inteligente das redes sociais, mas pode se tornar negativo, quando usa a violência, provocando a prepotência já instalada no aparato de segurança do Estado. A que leva tudo isso? Ao fortalecimento dos conservadores e aos discursos moralistas. É preciso saber o limite entre a ação da cidadania e da revolta política e a atuação aniquiladora dos que desejam apenas destruir, sem um foco legítimo para essa atitude.
          O amadurecimento de uma sociedade ocorre na medida em que é capaz de lutar por seus direitos, tendo presente o sentido de suas reivindicações. Quebradeira geral
não produz resultado satisfatório. A ideia é reconstruir o Brasil e não destruí-lo. Lutou-se muito para resgatar a democracia sequestrada pela ditadura cívico-militar. Ela ainda está tenra, aprendiz, dá seus primeiros passos.
          Que as Caminhadas de Outono expressem o soluço segurado na garganta de uma sociedade sufocada. Não quero contemplar nas ruas o cenário de uma guerra de todos contra todos. Desejo, antes, acreditar que essas caminhadas conduzam à Primavera desse Gigante, que já não dorme mais.
 Cecilia Pires

13.6.13

A Sociedade em Redes



Manuel Castells, sociólogo espanhol, na conferência intitulada Redes de Indignação e de Esperança, que proferiu no circuito Fronteiras do Pensamento, analisou o mundo atual como se mostrando em redes sociais. O padrão comum se manifesta na sociedade em redes, cuja aparição ocorre pelos movimentos sociais, que buscam e almejam mudanças sociais.
Essa mobilização supera o medo e manifesta indignação, usando a tecnologia da internet, como forma de organização para que ocorra o processo de comunicação entre os indivíduos integrantes das redes sociais. Pode começar desde amigos que se relacionam, passando por grupos de interesse comum face à violação de direitos, que se organizam entre o espaço físico e o espaço virtual. São espaços em que se formam as identidades desses grupos, que não são abstratos e compartem a vinculação a determinados objetivos. Não dividem poderes e nem compartem Partidos, pois o que lhes interessa é a horizontalidade da comunicação. “Vamos devagar, porque vamos longe” assumem como lema de seus encadeamentos sociais. Tudo isso manifesta uma mudança de perfil na sociedade, tendo a internet como base tecnológica; lembra a rede elétrica na era industrial.
A mobilização coletiva resulta, hoje, nas formas de comunicação de um determinado tempo. No tempo atual, a comunicação está baseada nas redes sociais. Temos uma humanidade conectada, refere Castells, mostrando dados que revelam 3 bilhões de usuários.
O surgimento dos movimentos sociais é uma resposta à indignação pelas condições econômicas e sociais determinadas. Uma imagem se espalha com rapidez, principalmente uma imagem de opressão e isso revolta, indigna, mobiliza. Aconteceu nos EUA, na Síria, na Turquia e agora estamos vendo no Brasil.
Além das redes da internet, há muitas outras redes. Elas não são burocráticas e por isso são ágeis e ocupam o espaço público. São visíveis os movimentos oriundos dessas redes e desafiam a ordem estabelecida. Vários são os problemas que dão origem aos movimentos em rede, desde a ecologia até as manifestações em defesa dos diferentes direitos das pessoas. Aí se constrói um espaço de poder, que se espalha nas redes de forma viral. As pessoas se identificam e manifestam sua indignação.
Não há lideranças ou as lideranças não se estabelecem como na organização formal. Não há necessidade de filiação ou representação. A horizontalidade é, pois, o mecanismo dessa forma de participação social. É um novo jeito de pensar a democracia exercitada na prática da ocupação do espaço público. . Os movimentos sociais em rede não têm a pretensão do poder instituído, não buscam a mudança política no sentido tradicional. Não reconhecem o sistema atual como representativo de seus interesses e a indignação surge, exatamente, por esta razão, por combater a perversão nas atuais formas da democracia no poder.
Se a sociedade está em redes, se estamos plugados uns nos outros por esse sistema, trata-se de fortalecer a esperança de que se possa experimentar outra forma de viver em sociedade, de modo menos vertical e mais mobilizador e transformador.
Cecilia Pires

6.6.13

Experiências e Significações




Nosso ato de pensar comunica, para nós e para os outros nossas intenções, paixões, interesses, compreensões diversas sobre a vida. Tudo isso explica nossa capacidade adaptativa. Fizemos ajustes em nosso comportamento. Nos ajustamos às circunstâncias, às mudanças, aos desafios, enfim, somos seres adaptados ao mundo que criamos e que, algumas vezes, destruímos.
É bom lembrar que a ciência começou com observações dos fenômenos da natureza e da vida em geral. Desse modo, pode-se inferir que nós todos colaboramos com os momentos iniciais do fazer científico, fornecendo dados da nossa experiência para serem estudados, de forma aprimorada. Isso, para dizer que as significações do mundo são construídas por nós, pela consciência que temos das coisas, das pessoas, dos valores.
Espanta-nos, por exemplo, o que vemos, ouvimos e lemos, diariamente, acerca da violência contra a mulher. Impacta-nos os registros das mortes das vítimas, que já procuraram auxílio nos órgãos oficiais e não foram atendidas. Mas, o que está na mente dos maridos, companheiros, amantes que usam a violência no trato com a mulher? Que ela é sua propriedade, que ele é seu dono e que decide como senhor sobre a vida e a morte dessa pessoa. Quem age assim, como exerce seu pensar?
Precisamos sempre de leis para regrar comportamentos, ou melhor, para disciplinarem nossas atitudes de adaptação. Mas isso também não é bem entendido, há pessoas refratárias às mudanças dos novos tempos. O caso dos idosos, outro exemplo. São olhados com descaso, estranheza e até desrespeito, porque lhes foi dada prioridade nas filas de bancos, comércio, lugares de ônibus e isso causa incômodo aos que não estão vivendo as dificuldades dos idosos e os olham com desprezo, como se eles fossem privilegiados. Se têm algum privilégio, foi o de viverem até essa idade e só por essa razão, os mais jovens poderiam olhá-los com carinho. O que dizer do motorista do ônibus que arranca bruscamente, não esperando o doso descer, no seu tempo, a ponto de ser jogado no asfalto?!  Qual a experiência do pensar que tem a consciência de uma pessoa que trata a outra dessa forma?
Nossa experiência de pensar é construtora de sentidos, de significados. Ao olhar os outros, o mundo, a nós mesmos, já expressamos a compreensão de significações. O que percebemos está associado aos conteúdos de nossa consciência. Percebemos o vivido, daí a unidade entre a experiência e o saber. Nossa percepção envolve valores, afetos, reconhecimentos, rejeições.
Alguém que mata a pessoa com quem vive, por não conseguir dominá-la, como construiu seu mundo de percepções? E que olha os idosos com desconforto e intolerância, que valores construiu, para perceber o outro?
Nosso pensar indica nosso viver. Nossa consciência na relação com o mundo é quem constitui as significações. Revela nossas experiências.
Cecilia Pires